Alto do Rodrigues – O esquecimento é maior que a morte, porque termina o que a morte começou. A frase é do poeta e escritor pernambucano Valter da Rosa Borges, mas parece ter sido escrita para os potiguares vitimados, outra vez, pelas fortes chuvas dos invernos nordestinos.
Três meses já se passaram desde o dia em que dezenas de famílias tiveram que deixar suas residências para não se afogarem nas águas junto com os poucos móveis e bens que possuíam. Três meses pode passar rápido, mas para quem ainda não pode voltar para suas casas ou não tem mais para onde ir, parece uma eternidade; um pesadelo sem fim.
O ginásio de esportes do município de Alto do Rodrigues é um dos quatro abrigos improvisados pela prefeitura para abrigar 45 famílias que ainda esperam pela ajuda pública para recomeçar suas vidas. Os recursos começam a aparecer e o governo municipal já anuncia R$ 5 milhões em investimento.
Trata-se de uma ação administrativa de respaldo, que garante construir casas, estradas e pavimentação. Os recursos são do Ministério da Integração Nacional, distribuídos pelo Governo do Estado para os municípios atingidos esse ano pelas chuvas.
A notícia alivia os corações dos afetados, mas não garante que seus problemas serão resolvidos em curto ou longo prazo. Essas mesmas famílias viveram o mesmo drama no ano passado e até hoje não receberam o que foi prometido; tiveram de voltar para as mesmas casas e reviver o trauma das águas inundando as casas, obstruindo estradas e afogando plantações.
Dona Ágda Maria é uma sobrevivente desse dilema. No ginásio de esportes do Alto do Rodrigues, divide o barraco improvisado, feito com tapumes e lençóis, com sua filha, genro e netos. As duas famílias somam dez pessoas, entre elas um bebê de menos de um ano. Eles se viram como podem para ter o mínimo de privacidade, pelo menos na hora de trocar de roupa.
Os banheiros são responsáveis pelas principais reclamações, fator que dificulta a convivência com as outras 15 famílias arranchadas no local. “Se não construírem minha casa eu não terei para onde ir”, disse a dona-de-casa que teve sua casa de taipa, no sítio Canto do Roçado, derrubada pela força dos rios que cortam o Vale.
Maria do Rosário morava no bairro São Francisco, próximo do Centro e também não tem mais casa. Ela e cinco pessoas dividem um espaço de pouco mais de dez metros quadrados. Rosário, Agda, Graciele, Ana Maria e Maria Deusa são apenas algumas das personagens de uma história que se repete e nunca tem um final feliz, pelo menos não para aqueles que enfrentam esse sofrimento. Homens e mulheres que veem sua dignidade descendo pelo ralo e dependem da caridade alheia e da boa vontade do Estado para sobreviver um dia após o outro.
Recursos enviados são insuficientes em Ipanguassu
No município de Ipanguaçu, o mais afetado pelas enchentes deste ano, a situação é idêntica: 45 famílias ainda vivem o drama de três meses atrás. O município esperava receber R$ 2,5 milhões para ajudar os atingidos, mas o Governo liberou apenas R$ 1,8 milhão.
A comissão de Defesa Civil alega que os recursos são insuficientes, mas garante que irão priorizar a construção de casas e assegurar a retirada das famílias das áreas de risco.
Municípios
Nos outros 24 municípios do Rio Grande do Norte que receberão parte dos R$ 30 milhões destinados, praticamente não existem mais famílias desabrigadas, porém a situação não é diferente. Muitos voltaram pra casa, mas não têm garantia de que receberão ajuda pelos prejuízos vividos.
De Apodi a Pendências, famílias perderam animais, lavouras, casas e móveis pelo segundo ano consecutivo e até hoje não receberam nada de ajuda. Deixaram de ser notícias e entraram no rol do esquecimento, pelo aparelho público e sociedade solidária. Os afetados são agora parte da estatística do mesmo poeta, Valter da Rosa Borges: “Um dia, todos seremos um dos bilhões de esquecidos, que tinham a ilusão de continuarem lembrados”.
Reportagem - Jota Paiva