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28.08.2008

Natal 2009: Natal tem déficit de 248 médicos

Hoje a Secretaria Municipal de Saúde possui 552 médicos para atender uma população de cerca de 800 mil habitantes. O que representa um déficit  de 248 profissionais, já que a organização Mundial da Saúde recomenda que seja disponibilizado um médico para cada mil habitantes. E esse é um dos fatores que contribui para a deficiência do sistema de saúde oferecido pelo município.

A classe médica tem uma justificativa para essa falta de estímulo. “Qual é o médico que quer trabalhar 20 horas para ganhar um salário base de R$520,00 ou 40 horas para ganhar R$1.030,00? Com esses salários, ninguém quer fazer parte do quadro do município”, disse o presidente do Sindicato dos Médicos, Geraldo Ferreira.

Apesar das reclamações de baixos salários, a SMS alegou que ao longo dos anos houve aumento de 192,7% na folha de pagamento dos servidores da saúde. Em 2002, a  folha de pagamento era mais de R$ 2.807.249,59 milhões, hoje ela é de R$ 8.217.798,60 milhões. “É claro que houve um aumento no número de servidores, passou de 4.282 para 6.256, mas a SMS proporcionou  aumento salarial para todas as categorias”, justificou a chefe do Departamento de Gestão, Trabalho e Educação da SMS, Marliete Fernandes.

Apesar disso há uma deficiência no serviço de saúde municipal, uma prova disso são as filas em busca de atendimento nas unidades de saúde e a reclamação da população. É difícil chegar nos postos e não se deparar com algum paciente reclamando da falta de médico e da demora no atendimento. “É um caso sério a falta de médicos aqui em Felipe Camarão. É só uma médica que atende as mulheres, as gestantes e as crianças. Um outro problema é que a gente chega bem cedo e o médico chega depois das nove e a gente fica esperando um tempão na fila. Agora me diga se tem condições de ser bem atendido?”, questionou a dona-de-casa Geruza dos Santos, que esperava há mais de duas horas para ser atendida na Unidade Mista de Felipe Camarão.

Mas não é apenas a população quem reclama, os profissionais da saúde também se sentem prejudicados, pois com menos funcionários e uma grande demanda sobra mais trabalho para quem está nas unidades de saúde. A técnica de enfermagem, Maria do Carmo Morais, é uma das que reclamam da falta de profissionais.

“Eu tenho uma amiga que trabalhou 52 horas seguidas para cobrir a escala da unidade que não tinha técnico de enfermagem suficiente cumprir o programado pela direção da unidade de saúde. Aqui mesmo não tem pediatra e os outros médicos precisam fazer as vezes desse especialista para atender à demanda”, disse Maria do Carmo Morais.

A Secretaria Municipal de Saúde tem consciência do déficit de médicos e outros profissionais da saúde e para tentar sanar essa deficiência a SMS  estabeleceu um sistema de prioridades. “Nós fazemos um remanejamento dos médicos para as unidades que apresentam uma demanda maior.  Em Felipe Camarão exitem três equipes do Programa Saúde da Família todas com pediatras, então nós remanejamos da maternidade para o Sandra Celeste, que possui uma demanda maior e também faz atendimento de urgência e emergência”, disse a chefe do Departamento de Gestão, Trabalho e Educação da SMS, Marliete Fernandes. As especialidades com o menor número de profissionais são a pediatria com 26 profissionais, psiquiatria com 19, ortopedia com seis e anestesiologista com cinco médicos.

Marliete Fernandes disse ainda que a Secretaria passou 12 anos sem ter um concurso para contratação de profissionais e que desde 2002 foram feitos três concursos em 2004, 2006 e 2008. O problema é que muitas vezes não há candidatos interessados nas vagas disponíveis. “Nesse último concurso nós abrimos cinco vagas para a especialidade de psiquiatria, mas não houve nenhum médico aprovado”, disse Marliete.

A SMS não tem previsão de um próximo concurso para médicos porque ainda estão chamando os que foram aprovados no processo desse ano, a previsão é que até o final de 2008 sejam chamados cerca de 100 médicos. “Há probabilidade de um concurso em 2009, mas para agentes de saúde, não para médicos”, afirmou Marliete.

Cremern fiscaliza qualidade dos serviços nas unidades de saúde

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte é a  entidade que fiscaliza o exercício da medicina e as condições do funcionamento das unidades de saúde. E nos últimos meses, o Cremern tem atuado bastante nessa questão da fiscalização da quantidade de médicos e cumprimento das escalas. Tanto que em julho pediu o fechamento da unidade de saúde dos Guarapes, zona Leste.

A interdição ética, que aconteceu no dia nove de julho, foi feita após representantes de Conselho constatarem falhas na estrutura física, ausência de equipamentos de urgência, falta de médicos na escala e problemas com a segurança dos profissionais.

“A SMS tem que oferecer um mínimo de atendimento básico à população. As unidades de saúde devem ter pelos menos pediatra, ginecologista/obstetra e clínico geral, o que não estava acontecendo nos Guarapes. A secretaria não tinha médico suficiente para cobrir a escala do posto o que deixava alguns turnos sem médicos”, disse o vice-presidente do Cremern, Luís Eduardo Barbalho de Mello.

O médico concordou que existe um déficit de médicos no município e atribuiu essa deficiência à baixa remuneração oferecida pela Secretaria. “Com os salários baixos, os médicos não se sentem atraídos em fazer parte do quadro do município e aqueles que já são da SMS não querem permanecer. E nós não estamos cumprindo o que determina a OMS de um médico para cada mil habitantes”, disse Luís Eduardo.

Ele disse ainda que a questão salário interfere também na qualidade do serviço prestado. “Para cuidar de alguém é preciso que você tenha uma estabilidade financeira e psicológica. A classe médica é uma das que possui um dos maiores índices de depressão e de problemas de saúde. Para manter um determinado padrão de vida, os médicos precisam trabalhar em três ou mais lugares”, disse.

Uma outra reclamação da categoria está na falta de investimento na qualificação dos profissionais, principalmente, nos médicos. “É preciso formar bem o profissional, mas também é preciso que esse médico tenha possibilidade de se qualificar ao longo de sua carreira e isso não acontece no sistema público de saúde. Os próprios médicos é que investem na sua qualificação, mas com os salários baixos fica complicado”, disse Luís Eduardo.

Para a  presidente do  Sindicato dos Servidores da Saúde, Sônia Godeiro, a qualificação oferecida pelo município é insuficiente. “A SMS oferece sim alguns cursos de qualificação, mas não são suficientes, eles não possuem uma continuidade”, disse Sônia Godeiro.

Pacientes criticam serviço das unidades

O descontentamento da população com a falta de médicos na rede municipal de saúde é notório. Basta chegar a uma unidade de saúde para ver muita gente reclamando da demora e da falta de qualidade no atendimento dos médicos.

Na unidade mista de Felipe Camarão, que oferece o serviço de maternidade, pronto-atendimento e ambulatório a insatisfação é geral. “Falta médico, principalmente pediatra e quando o que está na escala vem chega atrasado. O meu filho tinha que tomar uma vacina quando completasse um ano, mas só foi vacinado agora com um ano e dois meses porque não tinha a vacina. E aqui, um único médico atende tanto as crianças como os adultos.

No pronto-socorro a sala onde deveria estar o clínico geral de plantão, estava vazia. Os funcionários disseram que o médico plantonista da semana ainda não tinha aparecido na unidade desde segunda-feira.

“Os médicos não querem vir trabalhar aqui porque a remuneração não é boa e os que temos são remanejados. Aqui deveríamos ter quatro clínicos, mas só tem dois”, disse a enfermeira da unidade de Felipe Camarão, Joana D’arc.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE tentou contato com a direção da unidade mista para saber a quantidade de profissionais, mas a mesma não se encontrava no local e segundo os funcionários estava participando de uma reunião na SMS. A unidade não possui administrador.

Em Cidade Nova a situação não é  diferente. A unidade de saúde possui apenas dois médicos do Programa Saúde da Família, que atendem em média, 32 pessoas por dia. Os outros profissionais também não são suficientes. São  dois dentistas e dois auxiliares, sete auxiliares de enfermagem, quatro enfermeiros e um nutricionista.

“Os profissionais que temos aqui não são suficientes. A população reclama com razão, mas os poucos que temos são remanejados”, disse o administrador da unidade, Antônio Celestino.

E para piorar a situação, a unidade não oferece atendimento na quarta-feira pela manhã porque acontece a avaliação dos profissionais  e a limpeza da unidade. O que desagrada a população.

“Já não temos médicos suficientes e eles ainda fecham na quarta-feira de manhã. Faz um ano que eu estou tentando marcar uma consulta para o clínico e não consigo. Hoje vim em busca de um enfermeiro que aplique uma medicação, mas não tem ninguém porque estão nessa reunião. Quem não quiser morrer tem que procurar atendimento particular porque se depender do município morre”, desabafou a dona-de-casa Maria Cirlene da Silva que desde 2007 tenta, sem sucesso, uma consulta com um ortopedista.

Fonte: Tribuna do Norte

Tags: Natal 2009 - Desafios e Metas

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