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31.07.2008

Natal 2009 - Faltam pedras para obras de calçamentos



As ruas de asfalto são, ao lado dos “espigões”, uma das imagens que mais caracteriza o crescimento de uma cidade. Porém, nem sempre asfaltar as ruas significa o melhor caminho para seu crescimento. O próximo prefeito de Natal terá de conciliar a demanda da população e dos motoristas por ruas asfaltadas, com as preocupações ambientais, sem esquecer os paralelepípedos, ou mesmo as alternativas de pavimentação que devem surgir para substituir as antigas pedras, cuja produção é cada vez mais escassa.

“Hoje, a população ainda não leva muito em conta a questão ambiental, mas algum dia terá de levar e aí o paralelepípedo é melhor”, ressalta o secretário adjunto de conservação da Semov, Ronaldo Oliveira. Além de permitir uma maior infiltração da água, minimizando os alagamentos e os problemas com a rede de drenagem, o paralelepípedo termina sendo mais resistente.

Já o asfalto é o preferido, sobretudo dos motoristas, devido à estabilidade que garante ao trânsito. “Damos prioridade a colocar asfalto nas áreas de maior tráfego. Geralmente os anéis viários, as vias utilizadas pelos ônibus, são exatamente as que nós asfaltamos, para garantir essa maior estabilidade”, explica o secretário adjunto. Mesmo nesses casos, o paralelepípedo continua tendo seu uso, uma vez que é considerado a melhor base para a colocação do asfalto.

“Paralelepípedo ainda é a melhor base que se tem. Faço muitos tapa-buracos em áreas como em Cidade Satélite, ou Parque das Dunas, na zona Norte, em que a base foi feita com uma brita sobre piçarro, mas que não é uma base rígida. Quando fazemos tapa-buracos nesse locais, sempre que temos condições tiramos essa base toda e botamos paralelepípedo, para poder jogar o asfalto novo”, explica Ronaldo Oliveira. Um dos problemas dessa base é exatamente o período de calor, quando o “paralelo”, como o paralelepípedo é mais conhecido por quem trabalha com pavimentação, se desalinha. “O paralelo parece que vira pipoca”, resume. Muitas vezes isso ocorre porque os produtos utilizados para rejuntar as pedras se dilatam, fazendo-as se deslocarem e desnivelarem as ruas.

Moradores temem conseqüências

Ronaldo Oliveira aponta um dos locais da cidade onde já se percebeu a conscientização dos moradores quanto às vantagens do paralelepípedo. “Na rua Mipibu, por exemplo, já houve até propostas de asfaltar em alguns trechos que ainda são no paralelo, mas a população mesmo observou que se há alagamentos atualmente do jeito que está, imagine se for asfaltada”, ressalta.

Na região, localizada em Petrópolis, de fato muitos moradores temem a colocação de outro pavimento por sobre os paralelepípedos. Em uma rua transversal, a Cônego Leão Fernandes, as residências são tomadas pelas águas que descem tanto da Mipibu, como de outras vias asfaltadas, dentre as quais a rua Mossoró. “Todas as casas aqui já são protegidas com batentes, para ver se a água não entra.

Acho que tem de manter o paralelepípedo mesmo, porque se colocar o asfalto não vai ter para onde a água da chuva escoar”, entende a guia turística Andréa Romeiro.

Morando há 31 anos no local, ela desconhece qualquer obra de modificação do pavimento da rua, porém restos de asfalto em alguns trechos demonstram que o produto já foi colocado, sem sucesso. “Asfalto só vai piorar para nós”, afirma a moradora.

Rua mantém pavimentação original

Pavimentação também é história. Por isso asfaltar todas as ruas de Natal pode representar um risco não só ambiental, mas também ao próprio patrimônio da cidade. A travessa Pax, localizada entre as ruas São Tomé e a avenida Câmara Cascudo, na Ribeira, é a única da capital que preserva as pedras de maré (arenitos ferruginosos), comumente utilizadas para calçar as ruas da capital, entre o final do século 19 e início do 20.

Hoje, a pequena travessa tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual em 2007 é uma lembrança do quanto seria importante a capital preservar marcas de seu passado. “Esse tipo de patrimônio é um verdadeiro documento da história da cidade. Quando uma cidade deixa destruir seu patrimônio, é como se queimasse o documento de uma pessoa, fica sem sua identidade”, compara o historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Romero de Oliveira.

Ele ressalta que até meados do século 19, por volta das décadas de 1840 e 1850, em Natal só havia as ruas de barro. Aos poucos elas foram sendo substituídas por calçamento. O historiador considera que a preservação de um calçamento centenário como o da travessa Pax, tem dupla importância. Além de manter a identidade da capital, demonstrando cuidado com o passado do município, também pode trazer benefícios econômicos, incentivando o fluxo turístico.

A pavimentação da Pax é conhecida como “pé-de-moleque”, devido à semelhança da disposição das pedras com os amendoins colocados sobre o doce, ou mesmo de “cabeça de nêgo”. Em 2006, surgiram manifestações a favor do tombamento do local, após a aplicação de paralelepípedos para tapar um buraco surgido na rua, o que desfigurou a travessa, e do uso da área como local de despejo de metralha e resto de podas. O tombamento ocorreu em julho de 2007, apesar disso a via continua aberta ao tráfego de veículos.

Quanto maior a área asfaltada maior a necessidade de verba

Onde o asfalto é necessário, contudo, nem sempre há recursos suficientes para mantê-lo adequadamente. O secretário Damião Pita reconhece que é complicado levantar o dinheiro para a devida conservação da malha viária. “A Prefeitura consegue recursos para obras e projetos, mas é muito difícil obter as quantias para manter o que foi feito e quanto mais se pavimenta ruas, mais dinheiro é necessário para essa manutenção”, descreve.

Ele lembra que asfalto, como qualquer produto, tem vida útil limitada. O ideal é que cerca de cinco anos após sua aplicação haja um “rejuvenescimento”, com colocação de uma fina camada de “micro-revestimento”, o que garantiria mais dois ou três anos em boas condições, até uma nova revitalização. Esse produto veda as possíveis fissuras existentes, impedindo que a água penetre e amoleça todo o asfalto, que acaba sendo arrancado pelo tráfego.

Porém, como esses prazos normalmente não são respeitados, o desgaste torna-se tamanho que é necessário um recapeamento total, o que custa em média três vezes mais e inclui a raspagem do antigo asfalto e colocação de um novo. “Se houvesse o rejuvenescimento constante, não precisava estar fazendo o recapeamento. No entanto, como não conseguimos recursos para isso, vamos realizando os recapeamentos”, diz Damião Pita.

Em 2008 esse trabalho já foi feito pela Semov na Duque de Caxias, na Ribeira; na Prudente de Morais, entre as ruas Potengi e Mossoró; na São José, em Lagoa Nova; e atualmente na avenida do Contorno, próximo ao Passo da Pátria. “Ainda é muito pouco em relação ao que precisa ser feito”, admite o secretário. Serão realizadas até o final do ano obras semelhantes na Norton Chaves, próximo ao Batalhão de Engenharia, e também em algumas ruas da Vila de Ponta Negra.

Paralelepípedo já é item escasso no mercado

O futuro administrador de Natal terá de encontrar opções para a pavimentação da cidade. O atual secretário de Obras e Viação, Damião Pita, garante que é impensável imaginar uma capital completamente asfaltada, mas ao mesmo tempo começa a faltar paralelepípedo. “Já estamos pesquisando algumas alternativas. Porém nada ainda para este ano. Agora, isso vai ser necessário, porque a cada ano temos mais dificuldade na obtenção das pedras, as jazidas vão se esgotando, a quantidade diminui e o preço aumenta”, adverte.

Uma das opções em análise é o uso de um material pré-moldado para as vias de trânsito menos intenso. Seriam espécies de lajotas de concreto encaixadas, que deverão ser experimentadas inicialmente em travessas estreitas, onde não há circulação de veículos, ou mesmo em vias sem-saída, nas quais o tráfego é limitado. Damião Pita afirma que hoje o calçamento de paralelepípedo sai praticamente pelo mesmo preço de uma rua asfaltada, porém os “paralelos” ainda levam grande vantagem.

“Do ponto de vista ambiental, há muitas restrições ao asfalto. Ele aumenta em até 3oC a temperatura. Em ruas estreitas que são asfaltadas, você percebe que ninguém mais consegue colocar uma cadeira na calçada devido ao calor, no período da tarde. Também impermeabiliza o solo em 100%, o que pode piorar a situação da drenagem, facilitando os alagamentos.

Por tudo isso, temos adotado uma regra de só asfaltar as vias do itinerário do transporte coletivo, ou as de fluxo muito intenso de veículos, por uma questão de conforto”, explica o secretário.

Além disso, a resistência do “paralelo” também é maior. “Quando aparece um buraco no calçamento de paralelo, geralmente não é culpa do material, é um cano que estourou, ou um meio-fio que arriou. Na época do calor, aparece principalmente onde o rejunte é com cimento e areia, que forma o concreto e que dilata com o aumento da temperatura. No caso do rejunte com o asfalto, que temos adotado mais, isso raramente acontece”, assegura.

Fonte: Tribuna do Norte

Tags: Natal 2009 - Desafios e Metas, Política Urbana

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