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14.08.2008

Motoristas ignoram rotas alternativas em Natal

Um certo natalense passa anos utilizando ônibus para ir à escola, ou ao trabalho. Com as facilidades de crédito e o bom momento na economia, esse natalense consegue comprar um carro. Ele agora segue de veículo, para a mesma escola, ou o mesmo trabalho, e pelo mesmo caminho que fazia quando andava de ônibus. A situação não é hipotética, se multiplica por toda a cidade diariamente e retrata um dos grandes desafios do futuro prefeito em relação ao trânsito da capital: implementar e incentivar a utilização de rotas alternativas por parte da população.

O exemplo mais recente dessa prática de os “novos motoristas” repetirem os mesmos trajetos dos “antigos passageiros” está sendo percebido em relação às duas pontes sobre o rio Potengi, que ligam a zona Norte ao restante da cidade. Apontada como uma alternativa aos constantes engarrafamentos da ponte de Igapó, a recém inaugurada Forte-Redinha vem sendo subutilizada. “Temos ali uma estrutura que foi projetada para receber até 60 mil veículos (por dia), mas que hoje não chega a receber 15 mil, ou seja, está ociosa”, lamenta o chefe de Fiscalização da STTU, Walter Pedro. A expectativa inicial era de um fluxo de 25 mil no primeiro ano de funcionamento.

Ele reconhece que exemplos como o dado no início desse texto são comuns na capital potiguar e trazem, sim, dificuldades para a gestão do trânsito na cidade. “Muitas  vezes a população insiste em seguir pelo mesmo lugar, passando pelos mesmos pontos, mesmo que haja alternativas”, afirma. Isso vem ocorrendo em relação à ponte de Igapó, que teve uma grande melhoria no tráfego após a inauguração da Forte-Redinha (em novembro de 2007), mas que nos últimos meses voltou a receber um volume muito alto de veículos.

Por não haver condições de ampliar as vias de acesso à antiga ponte, qualquer acidente acaba fazendo os motoristas recordarem os tempos dos congestionamentos diários. “O maior prejudicado acaba sendo mesmo o transporte público, pois o ganho que o sistema tem obtido com a faixa exclusiva na Bernardo Vieira, acaba perdendo na ponte, que é um corredor em vias de saturação”, destaca Walter Pedro.

Ele afirma que a Prefeitura tem trabalhado para incentivar o uso das rotas alternativas, mas reconhece que mudar o “costume” dos motoristas não é algo simples, depende tanto de campanhas de divulgação, quanto de conscientização, educação e até mesmo a execução de obras, que tornem as rotas até então desconhecidas, mais atrativas. Um exemplo de estímulo a ser colocado em prática pela STTU é a construção de um pontilhão sobre a linha férrea que atravessa a rua Amintas Barros. O arquiteto do Departamento de Planejamento da STTU, Xavier Oliveira Neto,  considera essa uma boa alternativa ao trânsito de veículos particulares na Bernardo Vieira, porém o tráfego no local ainda é limitado pela ferrovia.

Mudanças nem sempre são bem recebidas

Abrir novas ruas ou estimular o uso das que estão ociosas, não são as únicas alternativas de melhoria do tráfego na cidade. Modificar o funcionamento das

atuais é outra opção que, se bem utilizada, pode desafogar o trânsito nas áreas de maior fluxo. Nesse sentido, a transformação de avenidas de mão dupla em vias de mão única é uma das medidas mais eficazes, porém traz consigo a resistência de moradores e comerciantes, que muitas vezes se vêem prejudicados.

O chefe de Fiscalização da STTU, Walter Pedro, afirma que a futura administração terá de analisar a possibilidade de tomar medidas como essa, ainda que inicialmente impopulares. “Vai ter de ser analisada essa saída, porque é uma boa alternativa, mas desde que exista o binário (uma via de mão única em um sentido e outra no sentido contrário). A população também tem de se preparar para essas situações”, defende.

A região vista por ele como propícia a receber esse tipo de intervenção é a do bairro de Lagoa Nova, que reúne diversas vias de grande fluxo, utilizadas por praticamente todos que precisam se deslocar entre as quatro zonas da cidade. A necessidade de iniciativas como a transformação de vias de mão dupla em mão única, porém, só poderá ser melhor analisada a partir do Plano de Mobilidade Urbana, que será concluído até o final do ano pela Prefeitura.

Antes mesmo disso, no entanto, já há como avaliar o peso de uma modificação dessas, onde ela já foi aplicada. Considerada pela STTU um sucesso, no caso da avenida Ayrton Senna, a medida foi recentemente adotada em parte da avenida Coronel Estevam (avenida 9). Tornou-se proibido transitar no sentido Centro-bairros entre a Leão Veloso e a Bernardo Vieira. Os moradores elogiam, mas os comerciantes lamentam. “Acho que reduziu o movimento de clientes em uns 50%”, afirma a comerciante Helena Cristina.

Ela, contudo, reconhece que a mudança desafogou o trânsito até então caótico do cruzamento da Coronel Estevam com a Bernardo Vieira. “Piorou para a gente, mas o acesso melhorou”, admite. A impressão é confirmada por Luiz Maurício Moura, que mora na “avenida 9” há 66 anos. “Ficou muito melhor”.

Zona Norte apresenta várias possibilidades de rotas

São poucos os espaços para ampliação, ou abertura de rotas alternativas ao trânsito em Natal. A zona Norte, contudo, é a região que apresenta melhores possibilidades nesse sentido. Uma rua local que ganhará nova estrutura é a Conselheiro Tristão. O objetivo é que ela funcione para captar o trânsito vindo da avenida das Fronteiras e da BR-101 Norte, levando esse fluxo até à ponte Forte-Redinha.

Hoje, a Conselheiro Tristão não passa de uma via de barro, tomado pelas poças de chuva e por várias subidas e descidas naturais do terreno, que dificultam o tráfego. A meta do programa Pró-transporte é pavimentá-la e ampliá-la, transformando-a em opção de acesso à nova ponte, desafogando o trânsito tanto na de Igapó, quanto na avenida João Medeiros Filho, a “Estrada da Redinha”.

Um dos problemas na reformulação da Conselheiro Tristão, comum também a outras obras, tem sido a desapropriação de parte dos imóveis construídos ao longo da via original. O processo já teve início, mas não há prazos para que a área necessária esteja desocupada. Até mesmo os viadutos de acesso à ponte Newton Navarro, pelo lado da zona Norte, até hoje não foram construídos por conta de impasses quanto às desapropriações, envolvendo inclusive residências da Conselheiro Tristão.

Os moradores da rua aguardam uma definição, sem saber qual será o destino de cada um. “É difícil acreditar que tirar a gente daqui, para passar essa rua, seja uma coisa boa para nós, porque ninguém sabe para onde vai, nem se vai conseguir comprar uma casa como as que temos”, afirma o aposentado Honório Fonseca, que há 15 anos vive no local. Assim como ele, o pintor Edmar Cabral teme que as desapropriações prejudiquem a população local. “Acho que vai ser ruim porque nunca se consegue a mesma coisa fora daqui”, afirma.

Via Metropolitana é fundamental

A criação de alternativas ao trânsito nas ruas já saturadas de Natal não deve se resumir aos limites da cidade. Uma das maneiras que o próximo prefeito terá de contribuir para desafogar o tráfego urbano é exatamente somar esforços ao Governo do Estado para a conclusão do projeto da Via Metropolitana, que irá circundar a capital, evitando que boa parte do fluxo entre municípios como Parnamirim, Macaíba, Extremoz e São Gonçalo (onde será construído o aeroporto de cargas e passageiros) venha a agravar o problema dos congestionamentos.

Ao todo, o projeto prevê investimentos de R$ 130 milhões e se divide em três etapas. De acordo com informações da Assessoria de Comunicação do Departamento Estadual de Estradas e Rodagens (DER), as duas primeiras já foram licitadas, mas aguardam por estudos e desapropriações para serem executadas, enquanto a terceira ainda está em fase de licitação. A idéia é criar uma via alternativa interligando o aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim, ao futuro aeroporto de São Gonçalo. “A Via Metropolitana tem total apoio da Prefeitura”, afirma Walter Pedro.

Ele lembra que os maiores gargalos do trânsito na Região Metropolitana de Natal estão exatamente nos acessos à capital pela zona Sul (BR-101, próximo ao viaduto de Ponta Negra) e pela zona Norte (na confluência do tráfego que vem da BR-406, estrada que liga a Ceará-Mirim, e da BR-101 Norte, rota que vem de Extremoz e de todo o litoral). Esse fluxo é acrescido ainda do originado em São Gonçalo.

Para
redistribuir a grande e crescente quantidade de veículos que chegam à zona Norte, proveniente das cidades próximas, a Via Metropolitana inclui em sua segunda etapa a construção do trecho ligando a ponte Forte-Redinha à BR-101 Norte, através do prolongamento e duplicação da avenida Moema Tinoco. A extensão total é de 7 km. Já a zona Sul de Natal deve ser beneficiada pela primeira etapa do projeto, que prevê o prolongamento da avenida Prudente de Morais, que hoje segue até o conjunto Cidade Satélite, chegando à BR-101, já próximo ao aeroporto Augusto Severo.

Os dois trechos seriam interligados na terceira etapa da Via Metropolitana, que inclui uma pista de 29 km de extensão total, indo da BR-304 à BR-406 e permitindo que os motoristas circundem Natal, sem precisar enfrentar as ruas apertadas da cidade. Uma pista de acesso entre o centro de São Gonçalo e o futuro aeroporto, de quase 3 km, também está prevista. O projeto da “Via” faz parte do Plano de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC) e da Agenda do Crescimento, do Governo do Estado.

 

Fonte: Tribuna do Norte

Tags: Natal 2009 - Desafios e Metas, Política Urbana

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