Até 2004, o maior problema da capital em relação ao seu lixo era mesmo onde despejá-lo. Porém, desde a criação do Aterro Sanitário da Região Metropolitana, localizado em Ceará-Mirím, o foco da Prefeitura passou a ser a coleta desses resíduos. A melhoria desse serviço público e conscientização da população a esse respeito, garantindo uma cidade mais limpa e saudável, é um dos grandes desafios do próximo prefeito e o tema desta semana da série “Natal 2009 – Desafios e Metas”, da TRIBUNA DO NORTE.
A presença de lixo nas ruas afeta praticamente toda a vida da capital. Os restos despejados pela população, carroceiros, empresas e outros produtores de resíduos acaba prejudicando a imagem de Natal junto aos turistas, facilitando a proliferação de mosquitos e vetores de doença como os ratos, pondo em risco a saúde dos cidadãos. Ainda atinge o meio-ambiente, contaminando rios, destruindo mangues e danificando as dunas. Além disso, facilita a ocorrência de inundações, pois entope galerias e prejudica a absorção da água das chuvas.
Uma das principais causas de todos esse males diz mesmo respeito à educação, ou melhor, à falta dela. É comum natalenses jogarem o lixo produzido em suas casas nas ruas, nos terrenos baldios ou mesmo no leito de rios e córregos. “Saí de minha casa por causa das enchentes e vim para cá (rua Sátiro Dias, no Alecrim) há alguns meses, desde então tenho de conviver com o povo jogando lixo nesse córrego, mesmo com o carro (do lixo) passando logo aqui pertinho. É uma sebosidade só”, lamenta a aposentada Alzira Firmino Pereira.
O córrego ao qual se refere segue ao lado da ferrovia e é o mesmo que passa em frente ao Hospital Giselda Trigueiro. A pequena lâmina d’água é tomada por sacos, restos de móveis, comida e fraldas descartáveis. Os objetos são despejados diariamente pela vizinhança. “Quem quiser meu voto vai ter de resolver esse problema. O fedor é diário. Eles cobriram o riacho do Baldo, que era muito maior, então precisam fazer o mesmo aqui”, ressalta Alzira Firmino, que conhece de perto os prejuízos causados pela má educação, já que teve de deixar sua residência anterior por conta dos alagamentos, intensificados pelo despejo de lixo nas ruas.
A controladora da passagem de veículos sobre a linha férrea, Edileuza dos Santos, concorda com as críticas da moradora. “Eu mesma já pedi para colocarem esse lixo em outro ponto, mas sempre jogam aqui mesmo. O povo não é educado e quando chove fica a maior catinga. Se for perguntar a eles, vão dizer que é o carro que não passa, mas a verdade é que os próprios moradores não contribuem”, reclama.
Além do despejo de lixo nas ruas e córregos, atitudes que vão contra a higiene da cidade também podem ser percebidas na ação de vândalos, que quebram os poucos cestos existentes pela cidade, ou mesmo na utilização dos bueiros como local de despejo dos resíduos.
Natalense não contribui com limpeza
A mensagem é simples, está destacada com tinta vermelha em um muro branco na avenida do Contorno, próximo ao Passo da Pátria, porém parece não estar lá: “Urbana – Proibido colocar lixo nesta área – Sujeito à multa – Lei 4.748/96.” Como que de propósito, logo abaixo dos dizeres estão montes de lixo e restos de poda dando a entender que o desrespeito à legislação é absolutamente consciente.
Essa atitude não é rara e pode ser registrada em todas as regiões de Natal. Na zona Oeste, às margens da rua Napoleão Laureano, diversos moradores e carroceiros utilizam os terrenos baldios como aterro. Em um deles, na manhã de ontem, diversos garotos brincavam e catavam lixo, sujeitos a cortes e doenças. Um deles, o menino “Souza”, de 10 anos, seleciona os objetos de plástico para revender, após ser liberado da escola onde estuda no meio da manhã.
O amigo afirma que o dinheiro arrecadado é utilizado para ajudar a família, mas também para comprar fichas e jogar sinuca. O garoto realiza o mesmo “serviço” há anos e diz não temer os riscos. Logo ali próximo, os exemplos não são dos melhores. Moradores da chamada “favela da Baixada”, no Bom Pastor, despejam seu lixo na encosta de uma duna, formando um aterro a céu aberto.
Urbana: 29 anos de história
A Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana) completou na última quinta-feira 29 anos de história. A empresa foi criada pela Lei Municipal 2.659/79, sob a administração do então prefeito José Agripino. O texto original previa como responsabilidades da Urbana a “limpeza das vias públicas e coleta do lixo domiciliar e industrial, inclusive sua destinação final” e “tratar ou industrializar os resíduos sólidos coletados, promovendo a sua comercialização, se for o caso”.
Desde então a companhia já estava sediada no terreno entre as ruas Mário Negócio e Bernardo Vieira, tendo sido inaugurada com recursos de 4,4 milhões de cruzeiros, para sua instalação e manutenção no primeiro ano de funcionamento. Ao longo dos tempos, foram sendo incluídos entre os serviços da Urbana a varrição das ruas, capinação, remoções especiais, limpeza das praias, limpeza de canteiros, pintura de meio-fios e limpeza do sistema de drenagem urbana.
A criação da empresa foi uma evolução da forma como a cidade tratava seu lixo. Em 1920, de acordo com textos do médico Januário Cicco, a Empresa Tração, Força e Luz era responsável por incinerar os resíduos coletados na cidade e mantinha um contrato com o Governo do Estado com essa finalidade. Antes, o terreno utilizado ficava ao lado do antigo matadouro público, na região hoje conhecida como KM 6, zona Oeste de Natal. O local de depósito desse lixo na capital potiguar passou a ser onde até o ano passado funcionou o Horto Municipal, no Passo da Pátria, às margens da ferrovia e do riacho do Baldo. No local não havia inicialmente qualquer tipo de tratamento.
Em 1935, um forno de incineração já funcionaria no Passo da Pátria e relatos dos engenheiros do escritório Saturnino de Brito (responsável pelo saneamento da cidade) descrevem que o equipamento incinerava “cerca de 32 m3 diários, trazidos em caminhões e carroças. A queima é acelerada por um ventilador. Na zona não servida pela limpeza pública, usa-se queimar ou enterrar o lixo. O serviço é incompleto e a Prefeitura pretende melhorá-lo”. O aparelho deu origem ao nome dado pela população aos aterros nos quais desde então se despejou os resíduos da cidade: forno do lixo.
Porém, ainda nos anos 40 o incinerador teria sido desativado e o lixo passou a ser simplesmente jogado no mesmo terreno até 1955, quando a Prefeitura transfere o “lixão” para uma área às margens da antiga estrada que levava à ponte de Igapó, próximo a onde hoje é o cruzamento da avenida Felizardo Moura com a rua Ararai, no bairro Nordeste. O despejo ocorreu no local até o final dos anos 60.
Em 1968, a Prefeitura passou a utilizar as dunas entre Cidade Nova e Felipe Camarão. O destino foi transferido temporariamente, no início dos anos 70, para que com o lixo fosse preenchida uma depressão localizada próxima ao Baldo, onde hoje funciona o estacionamento da Cosern. Logo em 1972 o “lixão” volta ao ponto anterior.
Em 1983, começa a ser utilizado um ponto de despejo localizado no final da avenida Interventor Mário Câmara, o chamado “Aterro Sanitário de Nova Cidade”, onde os resíduos pela primeira vez passaram a ter um tratamento controlado. A utilização dessa área segue até 1986, quando se retoma a área de Cidade Nova, que continuou funcionando até a criação do aterro sanitário de Ceará-Mirím. Em 1988 foi construída a Usina de Reciclagem e Compostagem, projetada para uma produção de 150 toneladas por dia.
O aterro sanitário de Ceará- Mirím, para onde é levada a maior parte do lixo da Grande Natal atualmente, passou a funcionar em junho de 2004, com uma vida-útil que pode alcançar os 30 anos. O local ocupa cerca de 60 hectares e recebeu investimentos equivalentes a 4 milhões de dólares. São 16 células (espaços onde é despejado os resíduos) com 125m por 250m de extensão, administrados pela Braseco, empresa que venceu a licitação realizada em 1996.
[ Fonte: Câmara Municipal / Urbana /Braseco]
Fonte: Tribuna do Norte

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