Notícias
18.08.2009
Nesta segunda-feira (17), Emir Sader, sociólogo e doutor em Ciências Políticas, esteve em Natal para falar sobre a Importância estratégica do pré-sal e o ataque ideológico à Petrobras. Na coletiva, o estudioso tratou de temas diversos como privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, cenário da sucessão presidencial de 2010, denuncismo da imprensa brasileira e até da “tentativa do governo FHC de tirar a Petrobras do Brasil”.
Nominuto - Como o senhor avalia a CPI da Petrobras?
Emir Sader - Querem transformar a CPI em um caso político de denuncismo, claramente inaugurando a campanha eleitoral. Os maiores escândalos da história brasileira se deram no governo Fernando Henrique Cardoso.
Os processos de privatização, maior transferência de patrimônio público para mãos privadas a preço de banana, empresas limpas pelo BNDES e depois vendidas por preço barato.
A própria mudança por 24h do nome da Petrobras para Petrobrax, em 2000. São escândalos políticos que afetam o patrimônio público, afetam o orgulho nacional e nunca foram colocados como CPI. O controle de contas esta aberto o tribunal de contas controla isso.
NM - Pelo tamanho da Petrobras, não seria interessante que, além do Tribunal de Contas, o Senado participasse?
ES - Bom, o senado não tem moral nenhuma. Nem sequer pra investigar a si mesmo. Essas mesmas autoridades sempre dirigiriam o senado. O Sarney e o Renan eram menos corruptos na época do FHC. Qual a diferença? O PMDB apoiava o governo. O Lula falou muito bem. O tema essencial é o termo sucessão no ano que vem. Eu acho que o patrimônio é um orgulho nacional. Mas não estão sendo colocadas as contas da Petrobras geral. Abre as contas do FHC. Se fosse no sistema de transparência poderia abrir também. Mas a ideia geral é que toda a intervenção do Estado é negativa.
Então o estado promover cultura já aparece como partidário. Outro dia um jornal disse que o governo ia ficar com uma porcentagem do pré sal. O governo é o estado brasileiro. Um pouquinho mais e diriam que o PT vai ficar com a porcentagem do pré- sal. Isso é uma coisa redutiva de não pensar o país como um todo. É uma ideia antiestadista. Quando Santa Rosa foi entrevistado pela Força Sindical correu para perguntar se ainda iam ter financiamento. E ele respondeu que sim, na devida proporção. Durante o governo Fernando Henrique, não houve um tostão para CUT. É uma decisão política. Agora a CUT tem mais recursos, porque têm mais afiliados. A Força Sindical terá na devida proporção. Isso é uma coisa pluralista. Falam que o PT tava patrocinando atividades do PT em municípios da Bahia. Então, traga-me as prefeituras do DEM e mostrem coisas similares que patrocinamos do mesmo jeito.
Mas esse tipo de atitude criminaliza o PT. Agora eles assumiram tudo o que o PT fez. Fizeram um evento em um hotel cinco estrelas no nordeste te para dizer que a política social do Lula era boa, ao contrário do que diziam antes. Que era assistencialismo, que estavam comprando... Então, estão assumindo tudo o que é substancial no governo. Tem que buscar temas secundários para desqualificar, é a campanha eleitoral. O que o Serra veio fazer no Nordeste? Campanha eleitoral. Então abra a campanha eleitoral. Isso faz parte da conjuntura política.
NM - Mudar o nome da Petrobras para Petrobrax era uma tentativa de minimizar o estado brasileiro? De desqualificar o estado brasileiro?
ES - Era dito que significava um passo para globalizar a empresa. O que significa isso? internacionalizar, privatizar e “Bras” era ligado a Brasil. Naquela época, era uma coisa de baixa estima. FHC e Collor desqualificavam o Brasil. A abertura era justificada para trazer modernidade de fora para dentro. Tudo o que era brasileiro justificava-se como ruim. FHC chegou a dizer que no Brasil existiam milhões de “inimpregáveis”. Como um presidente da república, um sociólogo diz para uma massa de pessoas que você não tem capacidade de qualificação de nem sequer ter emprego? Ao invés de ser responsável, teoricamente, politicamente, para dar conta disso. É uma atitude de desqualificação do País. A baixa estima brasileira nunca esteve tão baixa quanto nos anos 90 devido ao Collor e Fernando Henrique. A carta de intenção da última das três crises que o FHC fabricou, tudo indica, que tinha a privatização do Banco do Brasil, Caixa Econômica e Petrobras que foram abortadas pela eleição do Lula..
NM - Em termos de sucessão presidencial, como senhor avalia José Serra para 2010?
ES - Acho que o Serra não vai ser tão grosseiro quando o Alckmin para privatizar, até porque a conjuntura política era outra.. Quem dizia que o estado não deveria intervir na crise, estaria colocando álcool no fogo. Provavelmente, Serra vai fazer o que o Aécio Neves falou. Não seria anti-Lula, serei pós-Lula. Mas, o governo do Serra é privatizador. Se o BB não comprar a nossa caixa, isso vai pra mãos privadas, como foi o Banespa para as mãos do Santander. Para ver o nível da privatização, o Serra chegou a abrir espaço de publicidade nos uniformes escolares das crianças de escolas públicas para colocar marcas de cigarro e bebida. Ele queria conquistar a burguesia empresarial. Isso mostra pra eles ate onde ele poderia chegar. Não vai ser tão escancarado quando Alckmin no primeiro turno, mas no segundo ele terá que rever as coisas que fala.
NM - Existe uma onda de denuncismo por parte da imprensa brasileira?
ES - Se a imprensa tivesse dez por cento de denuncismo que faz ao PT em relação a FHC, o que teria acontecido? Ele comprou votos no congresso para ter um segundo mandato. Ele mudou a constituição na vigência do seu mandato ao seu favor. E se não comprou, tem altíssimas suspeitas. De repente, os votos do PTB foram convencidos.
NM - Em alguns setores a privatização foi benéfica?
ES - No ano passado, o Estado de São Paulo (jornal) fez uma pesquisa e deu um resultado diferente do que eles queriam. Oitenta por cento dos brasileiros são contra a privatização das telefonias. Gabeira foi o gestor da privatização dizendo que tem que modernizar. Tem que procurar razões disso. Serviço público é responsabilidade do Estado. Ele pode ter um contrato de tempo determinado para privatizar fábrica de sabão, mas serviço público não. Em São Paulo, Serra faz uma privatização disfarçada de saúde. Em todas as grandes cidades da Europa, o transporte urbano é público e além disso se cobra imposto do grande empresário porque muitos trabalhadores utilizam o sistema para ir trabalhar. É responsabilidade cobrar imposto é oferecer um serviço.
Fonte: Nominuto.com
Tags: Petrobras