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05.08.2011

Djalma, antes e após o golpe

De João Batista Machado

Se não fosse o registro da imprensa, os 40 anos da morte do ex-prefeito Djalma Maranhão, em Montevidéu, no dia 30 de julho recente, teria permanecido no esquecimento. Retorno ao passado para lembrar dois fatos que antecederam a consolidação do golpe militar, que derrubou o presidente João Goulart e, consequentemente, prendeu, depôs e cassou o então prefeito Djalma Maranhão, seu amigo e aliado político. O primeiro é o encontro casual no meio da rua (João Pessoa) e o segundo no gabinete do prefeito no Palácio Felipe Camarão, entre a rua Ulisses Caldas e Av. Câmara Cascudo (antiga Junqueira Aires).

Na informalidade do primeiro encontro, ainda encontrei um Djalma com o semblante calmo e fazendo ironia sobre seu futuro. No segundo, em seu gabinete, o ambiente era tenso. As notícias vindas de Brasília eram péssimas. O ex-presidente João Goulart, praticamente deposto, viajara ao Rio Grande do Sul numa tentativa desesperada de conter o golpe, que já se achava consolidado. Relato, agora, 40 anos depois da sua morte, as últimas 48 horas de Djalma no exercício do cargo.

Era quase meia noite de 31 de março de 1964. O prefeito Djalma Maranhão chega ao “Grande Ponto” dirigindo uma caminhonete Ford de cor amarela e logo é cercado por circunstantes, que queriam saber notícias sobre o levante das tropas mineiras contra o presidente João Goulart. Sem parar o motor do carro, Djalma conversa com as pessoas que o cercam, quando o presidente da Federação dos Sindicatos Rurais do Rio Grande do Norte, José Rodrigues, se aproxima dele e pergunta:

- Prefeito, e agora?

- Vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos. “Nem sei se amanheço preso ou prendendo alguém”, disse bem humorado. E acrescentou: “Vou me informar direito a respeito dessa tentativa de golpe. Boa noite a todos” e saiu apressadamente. Djalma estava sozinho. No dia seguinte, 1º de abril, criou o “QG da Legalidade” na prefeitura, onde recebeu a solidariedade dos amigos, auxiliares, políticos de esquerda, entidades de classes, principalmente de trabalhadores das mais diversas categorias e lideranças estudantis (secundaristas e universitárias).

No dia 02, a diretoria da Associação Potiguar dos Estudantes Secundaristas (APES) esteve com o prefeito em seu gabinete, tendo à frente o presidente da entidade, Ivan Sérgio Freire de Souza, acompanhado dos diretores Elias Fernandes, Milson dos Anjos e este jornalista. Solidarizava-se, também, com Djalma, o secretário geral da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), o norte-rio-grandense Esdras Alves, que se encontrava em Natal. Tinha conseguido, junto ao MEC, uma Kombi para servir à Casa do Estudante.

Descemos as escadas da Prefeitura e seguimos pela Ulisses Caldas, quando, de repente, ouvimos o barulho de caminhões do Exército chegando repleto de oficiais e soldados ostensivamente armados, que vieram prender o prefeito Djalma Maranhão, o qual se encontrava em seu gabinete. Presenciamos, da rua, sua prisão. Terminava, assim, pela força das armas, abruptamente, a gestão popular do ex-prefeito de Natal que morreu há 40 anos exilado em Montevidéu (Uruguai), fulminado por infarto, causado pelo tédio.

As duas cenas nunca mais me saíram da lembrança. A primeira, na noite de 31 de março, após o jantar a convite do amigo e sindicalista José Rodrigues, quando nos dirigimos ao “Grande Ponto”. Chegando lá, fomos informados que o general Mourão Filho partira de Minas para o Rio de Janeiro com a finalidade de depor o presidente Goulart. José Rodrigues, hoje, depois de sofrer todo tipo de perseguição política, é o presidente da CUT no Rio Grande do Norte. A segunda, quando vi Djalma Maranhão pela última vez, acompanhado dos companheiros já mencionados. Ainda demonstrava confiança e nos aconselhou a ter prudência diante dos fatos.

Djalma foi prefeito de Natal nomeado pelo governador Dinarte Mariz, na década de 1950, e o primeiro eleito pelo povo em 1960. Foi dele, como deputado, a iniciativa da emancipação política de Natal. Elegeu a educação com prioridade de sua gestão, além de dotar a cidade de obras estruturantes que impulsionaram seu crescimento. Seu programa educacional para os mais carentes “De pé no chão também se aprende a ler” obteve repercussão nacional.

Desportista, tinha sido lutador de boxe na juventude e professor de educação física do Atheneu. Construiu o “Palácio dos Esportes”, que a Câmara Municipal batizou com o nome dele, mas que foi retirado após sua deposição por exigência do novo regime opressor. Quase duas décadas depois, o então prefeito de Natal, José Agripino, mandou recolocar seu nome no ginásio esportivo, em solenidade que contou com as presenças de dona Dária, do filho Marcos, políticos, ex-auxiliares e amigos. Homenageou-o, ainda, com o nome de uma escola municipal no bairro de Cidade Nova. Natal deve a Djalma Maranhão a homenagem que não foi feita. Já é tempo de fazê-la, antes que seja tarde demais.

 

Publicado originalmente no Novo Jornal do dia 03/08/2011

Tags: Artigo, Natal

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