90 anos de Luiz Maranhão
Alexandre de Albuquerque Maranhão
Historiador
Foi um homem de afetos profundos. Tinha a vocação do amor tão impregnada em todas as suas fibras, tão profunda, que não lhe restou na alma qualquer espaço para o ódio ou para o ressentimento. Desta forma, Heloneida Studart, em um dos trechos de seu magnífico livro – Luiz, o Santo Ateu – definiu com bastante propriedade o caráter e a personalidade de Luiz Ignácio Maranhão Filho.
O Rio Grande do Norte e o Brasil devem a ele o devido reconhecimento. Que mal teria feito este homem para ter sido preso e torturado em momentos distintos de nossa história? Será talvez porque era um idealista e falava uma linguagem clara e objetiva em defesa da liberdade e da paz entre os povos? Por que defendia seus princípios éticos e políticos com coragem e ousadia de um pensador à frente de seu tempo? Ou quem sabe, por ter consigo a certeza de que um outro mundo seria, e é possível, em uma sociedade onde todos fossem alimentados, estudassem, trabalhassem e as divergências não fossem anuladas pela opressão?
Essas e tantas outras indagações, talvez tenham suas respostas em uma única frase: tem coisas que só se explicam pelo mistério do Mal. Os torturadores de Luiz Maranhão – esses agentes do Mal – onde estão agora? Nunca serão identificados? Ou estão por aí, vivos, livres e usufruindo quem sabe de suas promoções por terem ceifado a vida de um homem que ousou ser fraterno e solidário?
Seus algozes não o deixavam em paz. No entanto, Luiz Maranhão, militante incansável não tinha tempo para ter medo. Buscou até o último instante, até o dia de seu desaparecimento em abril de 1974, na cidade de São Paulo, unir socialistas e cristãos em torno de um só objetivo: o de procurar soluções para a grave crise política brasileira nos anos de 1960 e 1970.
Em 10 de fevereiro de 1956 casou-se com Odette Roselli. Moraram em Natal, num apartamento do edifício São Miguel, na Avenida Rio Branco. Foi uma relação de amor e sofrimento. A intensa atividade política e a vida atribulada de Luiz Maranhão foram responsáveis pela solidão e tristeza de sua esposa. Viveram separados pela intolerância, opressão e o autoritarismo do regime militar instaurado em março de 1964. Os perseguidores não deram chance para que ele e sua esposa Odette, pudessem viver livremente e terem filhos como qualquer outro casal.
Odette Maranhão viveu na esperança de um dia obter uma resposta para o fim de seu sofrimento, angústia e dor. O que ela mais desejava era ter de volta e poder abraçar aquele homem que fora preso e torturado covardemente pelos sádicos do regime. Esperou, porém, o tempo dos homens e não viu sequer o corpo de Luiz Maranhão aparecer: ela faleceu em maio de 2010. Também não presenciou a emocionante homenagem post mortem a Luiz Maranhão, da 42ª Caravana da Anistia, do Ministério da Justiça, ocorrida na Assembléia Legislativa em 26 de agosto passado, em que o então ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Diretos Humanos, fez a entrega do Memorial “Pessoas Imprescindíveis”.
Esta seria uma grande oportunidade para estarmos falando somente da figura humana extraordinária do professor, jornalista, advogado, deputado estadual e intelectual desprovido de vaidades Luiz Maranhão Filho, que se vivo fisicamente estivesse entre nós, estaria completando 90 anos de idade nesta terça-feira, 25 de janeiro. Entretanto, falar sobre ele e não citar o nome de Odette Maranhão é no mínimo uma grande injustiça. Ela passou por diversas humilhações quando ainda tinha forças para procurar pelo seu marido que estava desaparecido. Visitou políticos, generais, ministros de Estado, prisões e manicômios na busca por um “farelo de informação”, como ela costumava dizer.
Os torturadores dele foram os mesmos que preferiram torturá-la a vida inteira, negando-lhe o direito de ter o corpo de seu marido para sepultá-lo e chorar diante de seu túmulo.
Fonte: www.marcelosouza.com.br

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