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21.08.2010

22 de agosto: Dia do Folclore, leia matéria com Severino Vicente

 “O folclore é aquela coisa que já se diz há muito tempo: não há quem o faça acabar. É feito fogo de entulho. Vem toda onda passageira de modismo e vai embora. Quando você menos espera, aparece aquela fumacinha. É o folclore”. As palavras vieram de Severino Vicente, historiador que hoje é presidente da Comissão Norte-riograndense do Folclore, cargo ocupado por nomes como Câmara Cascudo e Deífilo Gurgel. Na véspera do Dia Nacional do Folclore, Severino Vicente dá a noticia de que o Estado não terá uma programação oficial. A razão, segundo ele, foi a determinação do Ministério da Cultura em suspender a lista de atividades durante o período de campanhas eleitorais. “Até certo ponto eu não acho que tenha sido legal esta suspensão, mas tivemos que nos render a quem tinha o dinheiro, a quem ia bancar o encontro”, disse Severino.

Rodrigo SenaPresidente da Comissão Norte-riograndense do Folclore lamenta a falta de verba para comemorações, mas diz que  há muito o que comemorar no Dia do FolclorePresidente da Comissão Norte-riograndense do Folclore lamenta a falta de verba para comemorações, mas diz que há muito o que comemorar no Dia do Folclore

Segundo o historiador, o evento estava orçado em R$ 300 mil e deveria custear as atividades previamente programadas comissão de folclore e a Fundação José Augusto. A lista de atrações era extensa. Estava prevista a apresentação de 250 brincantes, palestras, mesas redondas, lançamento de livros; tudo isso distribuído ao longo de uma semana. De acordo com Severino, o MinC garantiu a liberação da verba após as eleições. 

Apesar do dia do folclore ser passado em branco, Severino Vicente conta que o Rio Grande do Norte tem muito a comemorar. “O RN é o único estado no Brasil, que ainda mantém os quatro grandes autos, puros e intactos”. Os autos de Boi de Reis, os Marítimos, a Chegança e o Congo, seguidos de outros que não são autos, como o coco de roda e a Araruna, segundo Severino, não foram descaracterizados no Rio Grande do Norte. 

O historiador lembra que o Congo de Ponta Negra, mesmo após a morte do mestre José dos Santos Correia, se matem puro e que o mesmo acontece com o Fandango de Canguaretama e a chegança de Barra de Cunhaú. “Em canto nenhum no Brasil, vou dizer com a certeza de um viajante, vi um estado que preserve mais o folclore do que o RN”, disse Severino Vicente.

A força do folclore norte-rio-grandense é tanta, que o historiador lembra o dia em que foi convidado pelo falecido Mestre Altemar Pimentel para participar de uma apresentação de Chegança na Paraíba. “Quando a Chegança subiu no palco, o mestre me chamou e pediu desculpa, dizendo: essa aqui não é nem a sombra da chegança do RN”, conta Severino.

A preservação desses folguedos, segundo o presidente da comissão do folclore, vem sendo assegurada pela administração pública, como os programas Registro do Patrimônio Vivo, que garante uma pensão vitalícia para os Mestres da cultura popular, além do Prêmio Cornélio Campina, que garante verba para a manutenção de algumas destas manifestações — a primeira edição do prêmio foi de R$ 6 mil para cada grupo folclórico. “Além das instituições públicas é preciso contar com o apoio da sociedade e das instituições não governamentais, para preservar o folclore”, disse.

Historiador prepara livro sobre Folclore

No livro “Folclore e cultura popular nas práticas pedagógicas”, de Severino Vicente, que deveria ser lançado durante a semana do folclore, o autor diz que toda pessoa pratica ações que foram apreendidas pela tradição, ou seja, fazem parte de uma herança cultural deixada pelas gerações que as antecederam.

Na linguagem coloquial, está presente em todas as camadas sociais, entre os instruídos ou não, chega aos eruditos, influi e motiva as letras e as artes. “Compreender o folclore e a cultura, sobretudo nos dias atuais, exige uma aproximação neste campo do conhecimento, respeito pelo homem e sua cultura, atitude positiva em relação ao que é necessário preservar e documentar para a posteridade”, escreveu Severino.

E por que preservar o folclore brasileiro? Para Severino Vicente a resposta chega sem demora. Ele diz que na medida em que a sociedade brasileira passa a reconhecer os seus valores, a sua cultura, reconhece sua própria identidade cultural. E que, se essa identidade cultural for segregada, chegaremos a um presente sem passado e sem futuro.


Folclore com “f” maiúsculo é coisa para intelectual

O historiador explica que estudar o folclore não é coisa fácil e que por isso ele ganhou um “f” maiúsculo. Folclore, segundo Severino, é uma ciência estudada pela antropologia, que investiga o comportamento do povo, amparada na tradicionalidade, na aceitação coletiva e na dinamicidade da funcionalidade. “É o que Cascudo dizia: saber mais que o povo é coisa para o espírito santo”.


Trecho do livro


De acordo com o livro “Folclore e cultura popular nas práticas pedagógicas”, o significado clássico da palavra folclore, tornada ciência no início da segunda metade do século XIX é uma composição dos vocábulos Folk-Lore, Folk, povo, Lore, conhecimento, saberes do povo, gurdados, preservados, transmitidos de geração a geração e adquirindo novas formas, porque a Ciência da Folclorística não é estática, nem peça de museu, transforma-se, modifica-se, preservando suas peculiaridades e especificidades.

Entre o popular e o culto, a diferença está na formação psíquica. O que chamamos povo em folclore corresponde ao mecanismo psicológico, com seu apreciável quinhão de associações e comportamentos instintivos. 

Desta forma chegamos ao ponto conclusivo das duas ciências. Por mais que falemos em popular e erudito é quase impossível definir os limites exatos de ambos, porque o folclore está presente em todos os espaços e direcionamentos da vida humana, dos mais longínquos recantos às grandes metrópoles.

 

Maria Betânia Monteiro - repórter

Fonte: Tribuna do Norte

Tags: Cultura, RN

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